segunda-feira, 16 de junho de 2014

O regresso ao local do crime

Foi dito, em tempos já remotos, por alguém de saber atinado, com grande sentido de observação e excelente conhecedor da raça que se auto promove como humana, que, e cita-se: “o malfeitor volta sempre ao local do crime!”.
Foi com certeza uma observação feita conhecendo causas e efeitos e baseada em factos concretos credíveis e sem o mínimo de afinidade com o disparate. Por isso, que se saiba, ainda não foi contestada tal teoria, nem de outra haver que contradiga tão profundo pensamento. E mais, acontecimentos recentes, vêm dar alguma luz de credibilidade a este pensamento tão perspicaz e que tantos agentes da autoridade tem deixado nos locais, onde os fora da lei colhem frutos, esperando que estes lá voltem para se cobrirem de orgulho pelo brilhante feito ali deixado (a AR podia ser um bom exemplo para dar provas do facto só que os mal feitores nunca são apanhados). E que acontecimentos são esses? Pergunta-se…
Consta, nos anais da história contemporânea, que, nos idos tempos de à mais ou menos doze meses atrás, se deu uma desconcertante invasão à cidade erguida entre sete colinas e banhada por um rio que a refresca quando as brasas dum sol desfeito em chamas lhe provoca tais ondas de calor que, nem gelados de cereais fermentados nem imperiais de mojitos cubanos (ou será ao contrario) conseguem refrescar.
Foi uma invasão aparentemente pacífica, vivida e relatada por quem viveu bebeu e ajudou na sua execução, e que apanhou de surpresa os habitantes ensonados que observavam, de rosto franzido e desconfiado, aqueles carregadores de mochilas com bengalas de apoio ao reumático nas mãos, invadindo-lhes as ruas, entrando-lhes portas dentro e dessincronizando um amanhecer que eles pretendia sereno e silencioso para se recomporem da noite que só adormecera com o sol bem alto. Foi por isto, e também por algum gozo que se via aqui e ali em quem mantinha os olhos abertos com duas caricas de garrafas de cerveja, que a invasão foi passando de miradouro em miradouro deixando em cada passagem o estandarte que a identificava acabando numa catedral de cerveja erigida num terreiro junto ao rio, e que, não sendo, nunca, oficialmente condenada, foi sentenciada como crime de lesa rotina nos anais dos dignos povoadores das ruas e vielas estreitinhas onde há fado nas tasquinhas.
Os pensadores e peritos (excepção feita ao prof JHS que já não pôde estudar este episódio) nestas coisas de histórias e feitos invasionistas entre paredes do mesmo e ilustre sangue, um dia dirão que: “por ser tão mirabolante, tão insano, tão apelante à festa, tão cheio de alegria, com tanto gozo por olhar e viver a cidade de uma maneira tão ao gosto de quem faz dos caminhos a doutrina que dá sentido à vida, esta invasão nunca seria um crime, mas, na sua essência, estava algo perturbador para as populações e, o que seria aconselhável, era que o retorno dos foragidos ao local do crime fosse feito noutros moldes e em horas de maior movimento para serem confundidos com outros povos, principalmente orientais de olhos em bico que, em lugar de mochilas, carregassem MF”.
Depois de alguns anos, ao ler a história, tudo parece fácil e dar palpites é como comer tremoços para empurrar umas bejecas.
Para se concretizarem planos na actualidade, tem de haver estudo aprofundado e prevenir eventuais represálias por tentativa de plágio dum crime que tanto deu gosto em cometer.
Pois quem proferiu em tempos essa tão preciosa frase, “o malfeitor volta sempre ao local do crime!”, neste caso não se enganou.
Os malfeitores decidiram voltar ao local do crime, e foram. Muitos repetentes e outros tantos novos.
Para que os historiadores daqui a uns anos percebam à primeira e não inventem leituras complicadas para encher programas de TV, aqui se contam as razões dum retorno à cena afrontosa sem que os povos figurantes deitassem mau olhado ou tentassem boicotar o desempenho das personagens principais.
 
A data: dias de festa na cidade, o St padroeiro António

Convidou para a sardinhada
Toda a gente bem animada
Lá dos bairros e cercanias
Foi um festim casamenteiro
Com marchas e alecrim com cheiro
E fados nas noites vadias

E as horas: a população não dormira

Em Alfama já cantara o galo
Servia-se o almoço na Graça
A Mouraria estava um regalo
Em Santa Catarina virava-se a taça

Por isso: os invasores adornaram a festa

Desde o térreo paço ate à Sé
Por vielas e escadinhas calcetadas
Entre gente regozijando com fé
Estendiam cor pelas ruas engalanadas

De colina em colina fundaram um reino
Expandiram nas avenidas as folhas serranas
Deixaram nas margens dum rio sereno
Vincadas as marcas de opulências insanas

Nada será como antes na cidade mais amada
Ao contrário de Moniz terão porta escancarada
E quando de lá vierem com mochila esgotada
Mostram sorrindo alegria p’la cidade conquistada…

Falta dizer, para que a história não fique com empanes para argumentos ou dados omissos para análises de época, que a cena do crime foi inundada por um calor tórrido e as mentes, já de si pouco dadas a comportamentos em que o civismo esteja presente, embrulharam-se num remoinho de aplicações precárias de juízo e deixaram “o sol mio…” marchas, fados muita algazarra e muitos “parabéns a você …” espalhados pelas ruas e bairros com muita festa a saudar o St António.
No retorno ao local do crime os invasores foram abençoados, resta dizer que estão absolvidos de todos os crimes e podem voltar sempre que quiserem e a qualquer hora… Lisboa, as suas colinas, os seus miradouros e os seus bairros são uma via aberta sempre engalanada e pronta a receber toda a insanidade que por lá passar.

Isto é para os historiadores perceberem, daqui a trezentos anos, o significado daquelas estátuas debaixo daquele cipreste enorme no jardim do Príncipe Real…




Os meus agradecimentos aos artistas que fizeram as belas fotos que ilustram o texto:

Lena; Luísa; Carlos; Cristina; Zé&Dina e peço desculpa se me esqueci de alguém...

AS fotos não estão cronologicamente em sintonia com o texto mas isso também não interessa para nada, ou interessa?


joaocasaldafonte