domingo, 22 de setembro de 2013

Pela Costa Vicentina

O que importa não é o destino, mas o caminho para lá chegar!

Este poderia ser o lema desta aventura pelo Sudoeste de Portugal, na Costa Vicentina, onde o importante era caminhar ao longo da costa e desfrutar da sua beleza.

Situada no Sudoeste de Portugal, a Costa Alentejana e Vicentina é uma das mais belas e bem preservadas zonas costeiras do sul da Europa. Uma pérola guardada por gentes e por valores naturais surpreendentes, que apaixona cada vez mais os amantes da natureza. 

Era nosso objectivo fazer duas etapas distribuídas por dois dias, Porto Covo – Vila Nova de Milfontes – Almograve e Almograve – Zambujeira do Mar.

Estas etapas integram o Trilho dos Pescadores da Rota Vicentina Uma grande rota pedestre no Sudoeste de Portugal. 

Inserida no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentinasão 110 km de costa selvagem e cerca de 75 mil hectares de área protegida, constituído por um conjunto variado de habitats, alguns deles ainda pouco alterados, onde ocorrem diversas espécies de plantas endémicas e um grande número de espécies animais, com destaque para os anfíbios, aves e fauna marinha.



Numa pausa do Grupo NOVOS TRILHOS, enquanto o Chefe desafiava a alta montanha, alguns companheiros deixaram-se tentar por esta aventura.

O encontro estava marcado bem cedo em Porto Covo. Com pontualidade, depois do café, iniciámos o caminho.

   

Porto de Porto Covo




Do mar vinha o cheiro e uma neblina fina e fresca que nos apelava. Atravessada a aldeia iniciámos a descida para o porto pitoresco.





Logo a seguir a subida que nos leva à duna sobranceira à arriba, estava dado o mote, caminho de areia fofa e solta, de um lado o mar azul a perder de vista, do outro os campos ora maduros de dourado ora verdes.









Seguimos para sul em direcção a Vila Nova de Milfontes








Mais à frente avistámos a Ilha do Pessegueiro com o seu forte e na costa em frente, a Praia do mesmo nome.

Ilha do Pessegueiro

O Forte de Santo Alberto do Pessegueiro, também conhecido como Forte da Ilha do Pessegueiro ou Forte da Ilha de Fora, localiza-se na costa alentejana, na ilha do Pessegueiro.

Cruzava fogos, no continente, com outro forte marítimo: o Forte de Nossa Senhora da Queimada do Pessegueiro, também conhecido como Forte da Praia do Pessegueiro ou Forte da Ilha de Dentro, em posição dominante sobre a praia do Pessegueiro.
Forte da Praia do Pessegueiro

Ambos faziam parte de um projecto maior de defesa da Costa Vicentina, que compreendia um porto artificial ao abrigo de um molhe de pedra que ligaria a ilha do Pessegueiro à ilhota fronteira (penedo do Cavalo) e esta ilhota ao continente. 

O da ilha é um pequeno forte abaluartado, edificado em 1598; o da costa, também abaluartado, foi construído, sobre uma mais antiga bateria da época filipina, em 1685.

Estas fortificações costeiras, bem como a de Milfontes, inscrevem-se na necessidade de defesa da costa, quando, por finais do século XVI, o corso proveniente das cidades corsárias do Norte de África recrudesceu e colocou em perigo as populações ribeirinhas.


Deixando o Forte do Pessegueiro ao longe já se vista o areal que se estende até à praia do Malhão

A praia do Malhão localiza-se, aproximadamente, cinco quilómetros a norte de Vila Nova de Milfontes, em estado selvagem, caracteriza-se pelo extenso areal. Praia muito bonita, situada numa falésia com muitas rochas emblemáticas.



Está dividida em três partes, a norte encontra-se um vasto areal com grandes dunas. A sul, um extenso espaço protegido por uma encosta de rochas. Entre estas duas, formaram-se três pequenas praias mais protegidas dos ventos constituídas por belas formações rochosas.


 

   


 

Praia do Malhão - vista para Norte



A partir daqui atravessámos a falésia rochosa entrecortada, onde as rochas são constituídas essencialmente por xistos e grauvaques, resultantes da consolidação de areias, argilas e cinzas vulcânicas que se acumularam, há 300 milhões de anos, no fundo de um mar antigo. Na sua longa história foram comprimidas, levantadas, dobradas, partidas e arrasadas pelo mar durante as transgressões marinhas. As espantosas formas destes estratos são sinais desta história longa e conturbada.
Quando o mar recuou formaram-se dunas de areia sobre as rochas mais antigas. Essa areia consolidou formando arenitos – dunas fósseis. Na praia, o mar escava grutas nas rochas antigas. Os blocos gigantescos de arenito sobre essas rochas ficam sem sustentação e caem sobre a praia.









Quase a chegar a Vila Nova de Mil Fontes o Portinho do Canal.

A história do Sudoeste funde-se com a sua geografia, e foi a sua localização de território periférico e fronteiriço que determinou a sua evolução e a forma como chegou à actualidade. 

Quando, no século XIII, todo este território foi incluído no novo reino de Portugal, o povoamento tinha-se focado longe do litoral, surgiu então a tendência para a aproximação do mar. Assim, sob o patrocínio da coroa e com a intervenção dos poderes regional (Ordem de Santiago) e local (os homens-bons dos concelhos), nascem as vilas de Sines e Milfontes, em dois pontos favoráveis da costa. 

De novo, os portos assumiram papel crucial na vida das populações, garantindo pescado para as mesas e para o comércio de exportação dos produtos regionais. O rio Mira, atravessando um território tão vasto, permitia às embarcações chegar ao interior, o que lhe conferiu papel de destaque na história do Sudoeste e atribuiu à vila de Odemira o papel de centro polarizador.

Quando avistámos a foz do Rio Mira o sol já ia alto e quente, fazendo desejar a brisa fresca que de quando em vez nos dava alento.

Vila Nova de Mil Fontes - Foz do Rio Mira

 



Após a travessia do Rio Mira pela ponte, continuámos para Sul em direcção ao Almograve. A aproximação da costa fez-se caminhando no planalto litoral, onde os campos de cultivo são palco da convivência ancestral entre o Homem e os animais silvestres. O Homem e os animais silvestres convivem há tantos milénios neste mundo mediterrâneo que os fenómenos de sincronia são inúmeros.


As aves da estepe de cereal fazem os seus ninhos no chão da seara quando o cereal começa a crescer, de forma a terem abrigo e protecção. O choco é breve. Ao contrário das aves que nidificam nas árvores, as crias fogem do ninho pouco depois de nascerem… mesmo a tempo de sobreviverem à ceifa!

 

 Os quilómetros iam-se acumulando nas pernas, o piso de areia dificultava a progressão, o calor apertava, o planalto seco e meio deserto testava as vontades, desejava-se o Almograve para o tão retemperador descanso.




Cumprida a etapa do 1º dia, cerca de 33 km, Porto Covo-Almograve, o merecido descanso!



Pudemos ver, pela noite fresca, a maior e mais brilhante lua cheia do ano, saudando o início do verão.


Repostas as forças, o 2º dia começou cedinho, em direcção ao sul e à Zambujeira do Mar, esperava-nos uma festa para os sentidos. Por estradão sobranceiro à arriba, passámos sobre a Praia e logo depois pelo Porto Lapa das Pombas.


A partir daqui assistimos ao acentuar das características desta costa, as rochas deixadas a descoberto na maré vazia mostram estrelas-do-mar, ouriços, perceves e búzios…, as falésias (onde nidificam cegonhas, falcões, andorinhões, gralhas, rabirruivos…), as dunas (com plantas raras e endémicas, outras aromáticas e medicinais…), a foz dos rios e ribeiros (onde se reproduzem peixes, moluscos e crustáceos), os planaltos costeiros (onde se observam as migrações de milhares de aves no Outono, incluindo as grandes planadoras), os charcos temporários (onde vivem crustáceos pré-históricos e quase todos os anfíbios que ocorrem em Portugal), os vales encaixados (com carvalho português, lianas e arbustos de bagas coloridas), os ribeiros de água límpida (onde a lontra é rainha), as florestas de pinheiros e sobreiros (onde abundam javalis e se podem colher cogumelos e espargos bravos), mas também os ambientes modificados pelo Homem onde biodiversidade é notável – os montados, os prados, os pomares, os olivais…


Os arbustos das dunas têm frequentemente uma forma de almofada, que se revela muito aerodinâmica – não oferece resistência ao vento, antes o desvia com suavidade. Outras plantas são mais altas, atrevendo a erguer-se acima do nível das restantes. Mas, em contrapartida, são muito esguias e flexíveis, resistindo assim ao vento constante. Outras ainda são tão rasteiras que as espécies companheiras lhes oferecem a protecção que precisam.


Um registo incrível de um exemplo da fauna fantástica desta região, o abelharuco

 

Encontramos depois um dos símbolos mais reconhecidos desta costa. O farol do Cabo Sardão, vale mesmo a pena! 
Farol do Cabo Sardão

Este farol tem uma característica única: está construído ao contrário de todos os outros, com a porta de entrada virada para o mar e o farol voltado para terra!


Conta-se que o construtor terá compreendido mal a implantação da construção, rodando-a 180º. Sinal da dificuldade de comunicação porventura relacionada com a distância e a solidão desta costa.


Na segunda metade do século XIX, a mal iluminada costa portuguesa foi objecto de planos de iluminação para melhorar a segurança da navegação. O farol do Cabo Sardão só seria construído no início do século XX e só começou a funcionar em 1915. Os materiais de construção vieram de barco, sendo desembarcados num dos portos do Mira (Cuba) e depois transportados em carretas para o lugar da construção.


Outra característica única da Costa Vicentina é a sua colónia de Cegonhas-brancas. Aqui é o único local do mundo onde nidificam em escarpas marítimas, quase à distância de uma mão!




  

Cegonha-branca - Ciconia ciconia

No recorte das falésias encontrámos uma memória de outras navegações. Um sinal do mar ao mesmo tempo fantástico e terrível!


Continuando para sul, por entre os arbustos da falésia, chegámos a Porto das Barcas ou Entrada da Barca, aqui já com acesso beneficiado!          A proximidade do mar contribuiu para que as povoações desenvolvessem métodos e técnicas de pesca próprias, adaptadas às condições naturais das falésias. Pesca artesanal em que as embarcações mantêm as características mais antigas - de pequenas dimensões, boca aberta e casco de madeira.

As espécies mais comuns aqui capturadas, são o sargo e o robalo, congro ou safio, safia, pata-roxa, pampo, abrótea, besugo, búzio ou polvo. Nos crustáceos destacam-se as navalheiras e os perceves. No Concelho de Odemira mantêm actividade quatro portos de pesca, os que visitámos: Portinho do Canal, que se localiza a escassos metros a Norte de Vila Nova de Milfontes, Lapa das Pombas, situado a Sul da localidade do Almograve, e este Entrada da Barca, na Freguesia de Zambujeira do Mar, e ainda a Azenha do Mar, na localidade com o mesmo nome.

Vencida a arriba a seguir a Porto das Barcas, separavam-nos de Zambujeira do Mar cerca de 5km. Extensas retas debruadas por passadiço de madeira, entre-cortado por outros passadiços que nos conduzem à arriba e proporcionam postos de observação de aves e da costa, aqui é visível de norte a sul.



Cerca de 22 km percorridos, com o sol já alto e o calor a pedir algo refrescante, chegámos à Zambujeira do Mar!




Alcançado o objectivo que nos propusemos, tínhamos desfrutado de um conjunto de paisagens e momentos fantásticos com a certeza de sermos privilegiados por vivermos neste recanto!




Rota Vicentina - Trilho dos Pescadores


Um agradecimento especial, ao Francisco Antunes pela inspiração, disponibilidade e conselhos experientes e ao Carlos Aguiar pelo apoio logístico e não só...! Muito obrigado!