sexta-feira, 14 de junho de 2013

Um rapto para os lados da praia do Magoito

Entrara para a GNR convicto de que a ordem e a justiça iriam deixar de ser o caos e desconforto que imperam na sociedade quando, com os seus prestimosos serviços, a caça à reprodutora  gatunagem enchesse  as prisões deixando as ruas limpas para que, em sossego e sem temor, os cidadãos gozassem a liberdade a que têm direito. A sua dedicação total e a folha de serviço sem nodoa, levaram-no à promoção a sargento antes do tempo exigido para o efeito e, dai, ao comando duma esquadra, levou menos tempo do que o que teve para colocar os distintivos.
Tinha como ambição ser detective. O seu mestrado, dizia-o, ia de Poirot a Holmes passando por Maigret, Bond, inspector Closeau e Get Smart. Da televisão sugava todas as series policiais, tendo um carinho especial pela que tem uma equipe que procura pessoas…  “Sem rasto”. Sentia-se em absoluto coberto de todas as faculdades requeridas para pôr em prática os processos de investigação que detectam e apanham criminosos para os condenar e, em consequência, reparar os males que eles deixam pelo caminho. Mas, as investigações aos abanões provocados pela insolente vilanagem, na sua zona de acção, passavam para outros departamentos de sabedoria analítica, e o processo levava com todas as práticas previstas nos manuais que nas escolas para detectives ensinam. Era coisa muito científica. Para ele um pouco inútil, achava que indo atrás do faro com a intuição ligada, bastava para descobrir os desordeiros. Só que, na sua rotineira e penosa tarefa de caçar multas, nunca tivera oportunidade de o demonstrar.
Conhecia toda a costa da Ericeira ao Cabo da Roca e todas as praias nela arrumadas mas, a elas só chegava quando chamado para autuar as infracções ao código de estrada ou para pôr ordem em arrufos de automobilistas zangados por estarem cientes da sua razão ao tentarem passar dois num espaço onde só um cabia e os para choques das viaturas sofriam os danos dum encosto inevitável.
Tocou o telefone e ele pensou tratar-se de mais uma desobediência civil ao bom comportamento. Quando do outro lado veio a denúncia de rapto, as orelhas esticaram para que o canal auditivo aumentasse e o seu receptor de informação captasse em melhores condições o que era emitido na outra ponta do fio. Apontou as notas que lhe eram enviadas e preparou-se para investigar no terreno este caso que lhe caíra do céu, por sorte no seu telefone e num dia de descanso para as patentes mais sapientes. Tirara da gaveta o que aprendera  e munira-se de toda a perspicácia para levar em diante a investigação que a denúncia exigia. Em menos de três horas indagou, observou, deduziu e foi seguindo o rasto deixado na pista até à Praia do Magoito onde se encontrava. O rasto acabava ali, era ali o centro da investigação.
Foi recolhendo informação, pela rua ou no restaurante, entre os passantes que por ali andavam e, com ajuda do seu olho de falcão, a dedução era óbvia: andava por ali um grupo altamente suspeito que dali partira nas primeiras horas da madrugada deixando viaturas que, seguindo a sua intuição, deveriam estar à espera dos respectivos donos. Era portanto um caso para pôr em prática outro dos seus brilhantes predicados: a paciência. Pacientemente esperou pela fonte suspeita com a convicção, sem reservas, de que esta lhe traria a solução para o crime que finalmente lhe daria o devido reconhecimento.
A espera permitia-lhe um pouco de evasão ao seu casulo profissional. Vestiu os calções de banho e mergulhou nas ondas que o mar fazia morrer na areia. Quando despertou do seu breve sonho, pagou o café que bebera e o travesseiro que comera e foi para o miradouro sentir a brisa vinda do oceano que banhava aquela bonita estância de veraneio. Ali, embebido no enlevo de tão encantador isolamento, juntou os pedaços do que investigara e foi compondo a solução para o caso, faltava-lhe ouvir o ou os suspeitos para concluir o processo e um sorriso invadiu-lhe o rosto, o caso era seu e ninguém iria deixar nos padrões do esquecimento a celeridade da sua conclusão.
Alarido galhofeiro era o que vinha duma arriba ali ao lado, olhou nessa direcção e viu um grupo de gente animada que chegava de mochila às costas abancando no passeio enquanto faziam algazarra tão estridente que o mais duro de ouvido ouviria sem esforço. Desmochilaram-se e iniciaram uns estranhos movimentos com comando repartido por peritos na arte a que os ignorantes obedeciam fazendo figuras de rara anormalidade. O patusco bailado, que era o mais parecido com o que estavam a fazer, estava bonito e bem disposto mas ele tinha uma missão a cumprir e esperar mais podia amolecê-lo retirando-lhe
objectividade crucial para o inquérito, por isso:
- Boa tarde! Fala-vos o Sarg Mendonça oficial da GNR, peço desculpa por interromper as vossas brincadeiras mas tenho urgência em falar com alguém que represente este grupo…
- Sou eu! Pode falar comigo! Passa-se alguma coisa?
- O seu nome por favor?
- Francisco!
- Sr Francisco! O que se passa é que os srs são suspeitos de terem cometido um rapo e eu necessito de vos fazer umas perguntas, solicito a vossa presença, sem recusas, na esquadra sob o meu comando.
- Rapto!? Mas afinal quem raptamos nós? Desculpe mas não vamos ser detidos sem mais nem menos.
- Ora ai está um indício de culpa! O Sr. não nega o crime apenas ignora o género e a identidade da vítima! Quanto ao não quererem ser detidos mostro-vos o documento que vos intima à presença na esquadra para interrogatório. Façam favor de me acompanhar.
Na esquadra e numa sala cheia de gente agora mais carrancuda.
- Ora vamos lá! Facultem a vossa identificação ao Cabo Cosme para que fiquem registados nos autos. Quanto a nós sr Francisco, conte-me quem sois e o que fizeram hoje até ao nosso encontro?
- Oh sr Agente…
- Sr Sarg Mendonça se faz favor!
- Peço desculpa! Sr Sag Mendonça, nós somos um grupo de amigos que se encontra um dia por semana, aos fins de semana, para fazermos umas caminhadas, hoje foi mais um, encontramo-nos na Praia do Magoito e fomos andando por ai.
- Por ai por onde? Por onde começaram por onde passaram?
- Então iniciamos atravessando a praia, subimos e descemos os montes do outro lado…
- Espere ai! Está a dizer-me que subiram aqueles montes a pique que não têm estrada nem caminhos por onde andar?
- Sim! Foi isso mesmo…
- Foi foi queu tava lá e custou-me baita burro!
- Quem é você e onde foi arranjar essa mini que tem na mão?
- Ê sou o “mechilas” venho com eles e a mini veio dali do frignifique…
- Mas como é que você de lá a tirou? Eu não consigo e já me lá vão algumas moedas.
- Só mencostê ó báu o resto ele fez sozinho…
- Bem, traga uma para mim e fique ai sossegado! Quanto a nós sr Francisco, e depois?
- Depois foi andar mais para o interior por estradas, pinhais, planícies, algumas ladeiras, pequenas estávamos a guardar as forças para mais tarde, e assim chegamos a Catribana onde fizemos uma pausa para o Banana Time…
- Banana Time!? O que é isso?
- É o que chamamos à pausa para comer qualquer coisa. Normalmente come-se uma banana por isso o nome e hoje até tivemos bolinhos de canela para adoçar a boca.
- Huuuummm… e depois?
- Fomos andando até às arribas que dão para a Praia da Vigia e dai descemos até lá abaixo…
- Desceram até lá abaixo!? Por onde? Aquilo não tem caminho e o passadiço de madeira para além de partido nem perto da ponta da arriba chega…
- Mas foi por um trilho que lá existe que descemos, com cuidado, de joelhos, sentados, ajudando-nos uns aos outros, foi duro, levou tempo… mas foi divertido!
- Huuuummm… e depois?
- Fomos pela praia e mais à frente subimos a ravina pelo trilho…
- Dos pescadores! Esse conheço! Só por lá passa quem vai para a pesca e quem vai para a praia andar com tudo ao léu, é uma pouca vergonha! E depois?
- Depois o destino foi a Samarra! Repousamos, almoçamos, uns banharam-se no mar, um ficou por lá…
- Um ficou? Quem? Precisamos do nome dele! É suspeito como os outros, se forem considerados culpados ele também o será. E depois?
- Subimos a falésia até ao topo…
- Pelo carreiro que passa ao lado do rio de onde se vê uma Azenha?
- Não! Pelo monte que vai até à ponta da praia…
- Mas isso é praticamente direito e sem caminho! Quer-me fazer de parvo? Acha que eu vou acreditar nisso?
- Olhe… se não acredita é consigo… eu só lhe estou a dizer a verdade!
- Huuuummm… e depois?
- Passamos pelo “Casal Pianos”, fizemos a fotografia de grupo e o resto foi o destino que trazíamos quando iniciamos a caminhada, chegados aqui já o Sr Sarg Mendonça sabe o que se passou.
- Muito bem! Um depoimento bem elaborado e melhor decorado! Os Srs esperam que eu acredite naquilo que acabo de ouvir? Subir e descer ravinas e montes sem caminhos além de…
- O sr. Sarg Mendonça dá licença?
- Diga Cabo Cosme!
- É que um dos acusados tem fotografias que mostram por onde passaram!
- Mas você está do lado de quem? Mostre cá isso!









- Huuuummm… 

                                                   - Huuuummm… 






                                                                                                - Huuuummm…

E mais alguns Huuuummm… depois
- Estão bonitas mas não provam nada! Podem ser montagens! Agora há técnicas para tudo…
O proprietário da máquina
- Mass qui montagens? Nóss ainda não sáimoss daqui!
- Ah mas podem fazer manipulação ao tirar as fotos e fotos tiradas pelos acusados não podem servir de prova. Se é o que têm para vossa defesa não chega e como tal passam de suspeitos a acusados de rapto e sequestro dum individuo de raça canina…
Um coro de indignados
- UM CÃO!? SOMOS ACUSADOS DE RAPTAR UM CÃO!? OUVIMOS BEM!?
- Sim! Ouviram bem! Vou coloca-los em prisão preventiva onde aguardarão julgamento…
- O sr. Sarg Mendonça dá licença?
- Diga Cabo Cosme!
- Está um senhor ao telefone que deseja falar consigo!
- Diga que não estou!
- Mas é o senhor que telefonou de manha a denunciar o rapto do cão…
Há um enorme alarido na sala
- Chiuuu, calem-se, deixem ouvir… estou sim fala Sarg Mendonça… … o cão já apareceu? Como o cão apareceu?... … partiu a corrente e fugiu, e foi para onde?... … não sabe!? E agora onde é que ele está?... … ah, já está em casa! bom eu tenho aqui os Srs que o desencaminharam, quer acusa-los de alguma coisa?... … não quer acusa-los de nada? E o que é que eu faço com eles?... … mal entendido!? Foi um mal entendido!? Eu devia era prende-lo a si também! Com licença!
Desliga o telefone
- Bom, afinal parece que não houve rapto!
- Se o Sr Agente nos tem dito do que se tratava e acreditasse em nós, tudo isto era escusado… agora devíamos nós acusa-lo por danos irreparáveis nas nossas vidas… queremos todas as acusações contra nós apagadas os autos rasgados e um pedido de desculpas em directo nos noticiários mais vistos das tv´s… podemos ir embora?
- Po… não! Ainda temos duas acusações contra vós! 



Uma viatura mal estacionada e distúrbios na via publica impedindo o andamento duma viatura que passava!




Cabo Cosme traga cá os processos!
- Sr Sarg Mendonça os processos foram arquivados por  falta de indícios de culpa…
- Mas você está a falar de quê? Então não há fotos e a denúncia dum condutor?
- Há fotos duma viatura mal estacionada mas ao investigar o local verifiquei que a viatura em causa não estava no parque que a foto mostra mas noutro e bem estacionada… quanto à denuncia de mau comportamento, o denunciante retirou a queixa alegando que se atrapalhara ao ver tanta gente e deixara a viatura que conduzia calar-se e, com o stress a ralá-lo descarregou a ira nas pessoas que apenas se divertiam, há uma foto que mostra isso mesmo.
Era difícil não perceber toda a frustração transformada em ira por ver fugir entre os dedos grossos carregados de anéis, o caso que o levaria às primeiras páginas dos jornais especializados em escândalos, e foi com a voz embargada expelindo palavras azedas que disse:
- Não tenho nada contra vós podem sair quando quiserem.
Num instante ficou sozinho na sala. Ia levar o seu tempo a recompor-se do rombo que acabara de levar mas não era de baixar os braços nem sacrificar a postura e foi já pensando que outra oportunidade lhe apareceria quando entrou alguém
- Atão até mais ver mê sorjas…
- Você ainda aqui anda? Adeus! Já pagou a mini?
- Ê na mê sorjas e na tenho many… espere… BASTÃO Ó BASTÃOZINHO!
- Homem não esteja a chamar por quem não está, se é alguém que veio consigo já foi embora à muito tempo e você se não tem dinheiro fica aqui a fazer trabalho comunitário…
- Ó mê sorjas… trabalho ê sê o qué i na gosto, agora isso do comutir…
- Comunitário! Fica aqui durante uma semana a limpar as ruas e a dar o apoio que for preciso noutras tarefas…
Enquanto debitava sentença para o rebelde solitário, dirigia-se para a arca onde as minis refrescavam…
- ONDE É QUE ESTÃO AS MINIS? A ARCA ESTAVA CHEIA!
- Muita tempo aqui mê sorjas e muita calor deu baita sede e uma atrás da outra lá foram…
- EU DISSE UMA SEMANA!? O VERÃO TODO MAIS UM MÊS PARA TRÁS E OUTRO PARA A FRENTE… É ESSE O CASTIGO! E EU NÃO SOU SORJAS! SOU O SR SARG MENDONÇA!!!!

Consta que o verão foi muito curto para aquelas bandas… o trabalho comunitário já acabou…

joaocasaldafonte