quarta-feira, 8 de maio de 2013

Da janela



Da janela via um risco em tons de terra seca serpenteando a encosta entre muros de erva brava que vestiam, como mantos de guerreiros engalanados pelas conquistas contadas, os socalcos duma serra que subia na planície beijada pelo mar pousado no descanso entre duas ondas de vaivém ameno que se espraiavam pelos salões imperiais de imponentes falésias.
O tempo limpo e radioso que o sol fazia entrar na sala onde esperava o dia que pedira para saborear momentos de repouso e vibrante adrenalina, tinha caprichos de coisa incerta, desfazendo, num instante, o que prometera manter sem pedir sacrifícios que destruíssem o palco já projectado para o cenário desenhado onde se iria desenrolar o bailado coreografado.
A gota de água bateu na vidraça e espalhou-se no rectângulo de um quarto da janela de onde o olhar partia viajando em veleiros sem leme, à deriva pelas galáxias que o sonho alimentava. O horizonte ficou turvo e a luz do dia ia esmorecendo coberta por um céu cinzento que de repente os astros estenderam por caminhos que o olhar percorria. Não foi a gota de água mas a enxurrada que com ela veio, a causadora do retiro para o canto da renúncia ao que idealizara perante tão vasto e reconfortante cenário. O dia, de cinzento passou ao tom negro duma noite órfã de luar e o risco foi apagado na serra que se escondera entre o turbilhão de gotas que caiam em fios de amarga petulância remetendo o sol para um retiro de humilde incumprimento do que ao dia quisera conceder mas forças austeras lhe tinham usurpado.
Esperou porque os desígnios temporais de ora não estão como outrora, por hábito de norma sazonal, nos seus lugares arrumados. Esperou porque a esperança evita a rendição perante um estrondo, que faz fumo e assusta, mas não deita abaixo a arvore que alimenta a floresta. A espera compensou-o, mas não veio a tempo. Desligara ele próprio a luz que o iluminara e, quando a claridade natural voltou, olhava por outro canto da janela e já não via a montanha riscada que o encantara. Não perdera o encantamento e a tentação mantinha-o atento a outros sinais que de lá viessem. Subiria a encosta e do fim do seu risco voaria até à janela para de lá partir ao encontro de outros lugares.

Da janela via um rio: liso como o vidro que o separava da sala, onde resistia aos sonâmbulos condimentos da vida, e a rua, onde corria contra as intermitências do tempo; azul, como reflexo do véu que cobre a terra, quando o sol resiste ao desfilar de nuvens de negro alimentadas, repondo no ar a centelha de fogo que ilumina o firmamento dando-lhe o brilho dum cálice de prata polido ao amanhecer; mole como azeite repousando no lagar depois de secas as azeitonas que lhe deram o suco denso e precioso.

Foi por este rio que foi. 
Procurou na paz desértica de águas adormecidas, recantos onde retivesse memórias e retratos duma passagem pelo retábulo onde as peças se movem pelo prazer do encontro retemperador com as margens alienantes que o rio beija no seu caminho de sobranceria sedutora. Era uma margem a transbordar de gente procurando uma fuga ao mole refugio da dissolvente estrada do dia a dia onde aconchegam o corpo, a contrastar com um caudal indolente, onde só as aves sinalizavam a vida, numa serpente de água outrora navegada por druidas, que a libertaram de serras aragonesas, abrindo-lhe caminho entre escarpas e planícies até ao mar de atlântidas praias onde os povos lusitanos assentaram suas tendas.
Magia druitica ou tradição navegante? A duvida assombrou-lhe a mente quando a vida naquelas águas abriu passagem para um desfile de pirogas deslizando no manso leito do rio empurradas por timoneiros de remo em riste que davam propulsão ao engenho pela força hercúlea duma vontade de ser e ir, combatendo a natureza numa luta sã e reconfortante.



Da janela viu dois mundos, tão distantes e tão próximos, inundarem-lhe a sala virada à luz nascente que recebia a luz poente e, olhando pelos vidros já secos sublimando a transparência, esqueceu as divergências com o tempo e assentou na agenda outra rima para o poema onde se exalta o valor da vida

joaocasaldafonte