sábado, 27 de abril de 2013

Noite de fados dia de sol

Fora para os fados.


Andou pela noite de Alfama parando em cada casa onde se cantavam as baladas vadias que o bairro ouvia até altas horas da madrugada. Quando as vozes se calaram, a noite adormeceu mas a insónia permanecia nas vielas mais escondidas onde não havia fados mas o vinho escorria pelas mesas duma taberna a meia luz que iluminava a clientela que esperava que o tempo passasse sem ver que o tempo por ali já passara e as marcas que deixou simulam a vida que lhes vai dando vestígios de existência.
Entrou, também para ele a insónia era companhia. Meia dúzia de mesas, uma televisão ligada porque sim. O taberneiro, de olhos ensonados, tentava ver o que se passava na caixa sem conteúdo, dois ou três clientes espalhavam-se pelas mesas olhando para o copo vazio como se estivessem à espera duma ultima gota para os confortar antes do dia aparecer para que eles se deitassem a tentando alimentar-se do sono que já o corpo lhes servia. Na mesa ao fundo, um velho cismava em frente a um copo vazio fumando a ultima beata das que escolhera na calçada que serviam de cinzeiros á sombras que vegetavam na noite. Sentou-se ao pé dele para que a solidão fosse repartida. O velho pediu-lhe um cigarro, e entre nuvens de fumo e copos de vinho que iam enchendo a mesa, contava histórias que vivera com a sua amante que carinhosamente chamava Lisboa. Ouvia fascinado a voz rouca e cansada falar da sua paixão por aquela cidade que de dia lhe dava a luz que lhe inundava o quarto e á noite o acompanhava deambulando pelas ruas que envelheceram com ele e como ele sustentam as rugas erguidas nos seus ombros. Na toalha com rodelas de vinho que os copos sujos deixavam, o velho ia desenhando, com um fosforo molhado no que restava de vinho no fundo do copo, um corpo de cidade cheio de colinas vielas praças e jardins que resplandeciam banhadas por um rio seguro num átrio de colunas onde os amantes se beijavam envolvendo-se num abraço apaixonado.
A noite clareava com os primeiros focos de luz que iam inundando as ruas e vielas onde vida nova já se anunciava. A taberna fechara e o velho, levando meio maço de cigarros e uma garrafa de vinho, pegou nos cartões que o iriam proteger, do sol ou da chuva tanto fazia, lá foi à procura dum canto para dormir enquanto a amante recebia as visitas que aos poucos lhe iam entrando casa dentro.
Sentou-se num banco dum miradouro tentando perceber onde ficava pelo mapa que o velho lhe oferecera, enquanto ia observando, ao fundo, o tejo de águas serenas que ondeavam para as margens à passagem de um paquete que entrava na barra iluminado pelo sol que, lá do alto, ia enviando os sedimentos da fornalha que davam brilho e inundavam de calor os telhados que se uniam parecendo, um só, o teto que tapava os bairros a seus pés.
Ouviu vozes, muitas e numa grande pandega de risos a faiscar alegria. Quem seriam? Possivelmente turistas, mas de onde? Deu para perceber quando, mais atentamente, viu no grupo sinais de, lusitana saloiada  – donde vêm? onde vão?  – viemos de todos os lados… vamos por ai conhecer… vem connosco! porque não? não tinha ninguém à espera e a cama não lhe devolvia o sono que lá deixara à muito tempo por isso as noites eram brancas num buraco negro de onde tentava sair.
Foi com eles.
Seguiu-os pelas ruas num roteiro quase alimentado pelas memórias do velho. Em cada passo perdido em cada miradouro vigilante em cada praça engalanada em cada jardim perfumado em cada viela escondida em cada beco aliviado lá encontrava uma história gravada nas pedras ou nas árvores que são os rostos da memória.
Seguiu-os recolhendo saberes e nomes dos lugares por onde passaram seguindo á vista o timoneiro idealista duma outra cidade mais aberta e exaltante mas integrando os mesmos ingredientes que fazem dela a amante dum velho que lhe doará as cinzas para que as conserve no Panteão da eternidade.
Seguiu-os por Santo Estêvão que ouve Amália cantar numa Feira que é Ladra para dar de comer aos pombos em bandos lá pela Graça que se estende para a Senhora que de Monte em Monte Agudo acompanha seu primo Constantino que como parente tem o Santana ambos presos no Torel.
Esfumou-se aqui o roteiro saloio. Deu-se a fuga do Torel e, estando eminente a captura, escaparam por outras ruas, de eras pombalinas, que desaguam no parque onde Eduardo foi sétimo por descendência real e onde um pavilhão de gloriosas memórias jaz moribundo na degradante prisão de infelizes decisões.
Mas de vacas magras não era o dia e, no cume da cidade, o horizonte de mosaicos verdes chega a uma rotunda com nome dum Marquês que se ergue imponente com o leão a seu cuidado, mirando, na margem de lá do rio, o Cristo Rei de braços abertos tentando abraçar Lisboa. Da rotunda sai uma avenida que é voz de liberdade para o Tejo, que ao fundo, abre águas para que passem os cacilheiros.
Juntaram-se para uma foto de grupo junto a um monumento de medidas curiosas originando mais risadas contagiantes e brejeirices tuga. Tudo em sã camaradagem ou não andasse por ali o espirito NOVOS TRILHOS.
De falo petrificado subiu-se á Estrela onde o repouso teve como compensação pôr a dieta nos níveis ideais para evitar amuos estomacais que tiram robustez ás tenazes locomotoras. Refeitos e reconfortados, a sobremesa foi hóstia na Basílica onde o noivo esperava a noiva para um evento que se espera nunca se venham a arrepender pois, o Palácio das Necessidades nem sempre tem as Janelas Verdes abertas para que os Santos sejam benevolentes. Já Santa Catarina, que convidara São Bento que alberga no seu palácio regedores doutores e outros ores da nação e que trazia a seu reboque um Príncipe Real senhor de jardim onde o Buçaco plantou Cedro para sombra monumental, espera ansiosa pelo desenlace entre São Pedro de Alcântara e a Carmo para com ele celebrar uma união, Santa e Justa, que os leve ao Terreiro do Paço.
Foi o fim do roteiro para o grupo. Para ele foi viver as histórias que ouviu contadas pelo velho nómada naquelas horas em que os dois tentavam, no conforto duma noite sem sono, desimpedir as encruzilhadas da vida.
Bebeu com eles à saúde de qualquer coisa de bom para que, os fados as vielas as ruas vadias as avenidas de coloridas os jardins floridos e a luz resplandecente, nunca acabem nesta cidade onde respiramos saudade.


Despediu-se e tomou outro rumo. Ia finalmente para casa onde o esperava uma cama que agora o iria adormecer.
Passou por uma mansão antiga que em tempos foi sumptuosa e que agora vai caindo aos poucos desfigurando a rua onde outrora fora rainha. No portal da porta imensa, reconheceu o velho que dormia debaixo dos cartões que o lixo lhe emprestara. A garrafa estava vazia e o que tinham sido cigarros eram agora beatas, que guardava numa caixa para saborear na noite que ia entrando.
O dia empalidecia mas era com a noite que o velho contava para lamber a sua amante antes de entrar numa taberna qualquer dum bairro que não fechasse, para contar as histórias de novo a quem, como ele, o quisesse ouvir.
Seguiu caminho, e enquanto caminhava não deixou de pensar nesta Lisboa que é um encanto… num pais desencantado

joaocasaldafonte