sábado, 30 de março de 2013

“Bastão & Picolé”


- “Picolé” vais à caminhada amanha?
- Vou claro que vou! Onde é?
- É nos picos da Malveira. Temos de estar na casa do Francisco á 8:30!
- 8:30? Porra tão cedo?! E na casa do Francisco? Porque é que tem de ser sempre na casa dele? A gente temos de ir para lá e ele não precisa de sair de casa, não sabe o que é um gajo levantar-se cedo, gastar combustível, andar á procura de boleia. Porra é sempre a mesma coisa. Na sei, acho que na vou. Se não o fizermos sentir que tá a ser injusto ele não aprende e eu não quero tar sempre a cantar a Grândola. Na, na vou!
- Vai haver lanche, vamos comemorar as sessenta caminhadas e festejamos a Páscoa em grupo!
- Hã? Lanche? Queres dizer… comes e bebes?! Pinga boa e bom rancho?!
- Sim, é isso mesmo! Como é vou ai buscar-te?
- Ok, passa por aqui! Mas não venhas muito cedo, preciso de dormir mais um bocadinho depois de acordar e se me acordas eu vou andar rabugento o resto do dia.
-  Ok chefe!.... (porra que paciência, como é que eu aturo ainda esta gajo)
No outro dia às 8:00 em ponto
- Tou aqui… desces ou vou buscar-te?
- Porra… já? É pá… na dormi nada de noite a pensar que isto de levantar cedo na dá saúde nenhuma e o despertador tamém acho que adormeceu, esperas um bocadinho só pa acabar este sono que eu já desço, tabém?
- Não! Ou desces já ou vou-me embora, não quero chegar atrasado!
- Pronto, ok, na te zangues, espera um bocadinho…
00:30 depois
- Até que enfim! Agora tenho de acelerar para não chegar atrasado, és sempre a mesma coisa! Olha cá, não trazes nada para o lanche?
- Trazer coisa pó lanche? Atão mas o lanche não é o Francisco que oferece?
- Não! Claro que não! O Francisco ofereceu espaço na casa dele para a festa, mas o morfes somos nós que levamos!
- Ó porra! Na tenho nada! Na trazes qualquer coisa a fazer conta comigo? E sa gente passasse por um supermercado?
- Tás maluco! Vamos embora, não hás-de ficar com fome. Só se te der para teres vergonha!
Começa a caminhada
- Ó “Bastão”, tá a chover! Né melhor voltar pa trás? Já tenho as botas molhadas e não truxe nada que me tape… vamos embora?
- Vai tu! Eu estou bem!
Mais á frente
- Gaita paristo! Já tamos a subir! O qué que vamos lá acima fazer? Isto assim é cruel, o Francisco com estas manias do sobe e desce tá a perder aderência, qualquer dia espalhasse.
Um pouco mais á frente
- Atão e agora? Vamos descer estas escadas cheias de lama?... Porra pá, fiquei enterrado! Olha pás minhas botas e calças! Que raio de estradas é que ele páqui arranjou? Ouve lá… o lanche tem de ser muita bom pa compensar isto!
- É igual ao que trouxeste!
- Porra pá! Eu na merecia isso da tua parte, anda um gajo aqui a sofrer e ainda tem de aturar desaforos?! Essa magoou!
- Peço desculpa, foi sem intenção!
Um pouco dum pouco mais á frente
- Chiça! Já tá a chover outra vez! Nem dá tempo pá secagem… mas o que é isto? Um rio? Agora temos de passar um rio? Fónix! E depois? Vamos subir uma ladeira cheia de lama é? E descer uma ladeira empinada? E subir uma ladeira cheia de ramos e troncos de eucalipto? E atravessar uma estrada cheia de carros pa passar por um pântano tapado com ervas pá gente se enterrar todos?
- Não sei se vamos fazer isso tudo mas tou em crer que sim! E olha, aquele monte que está a ver daqui? Vamos passar por lá.
- O quê!!!! Tá tudo maluco????
- Estamos sim senhor! A insanidade afectou-nos profundamente! Agora não á nada a fazer!
- Mas olha lá! O monte não se vê! Tá cheio de nevoeiro! Na vamos lá fazer nada! Ouve bem o que te vou dizer: se eu sair daqui doido como vocês, alguém vai ficar com remorsos ai isso vai!
Lá mais á frente perto do fim
- Já no fim! Atão levantei-me tã cedo só pa andar isto? Nem fizemos os picos todos!
- Então… chegou-se á conclusão que o esforço não compensava! Não se vê nada lá em cima e deve estar frio.
- Mariquices! Tá tudo mas é com fome e com medo que o papagaio vá depenicar o bolo de espinafres e meter o bico na rolha da galhofa e depois ninguém o cala!
- Também é um bocadinho isso, mas eu acho que o papagaio não gosta de bolo! Voltando á caminhada, eu gostei muito, a malta divertiu-se, as dificuldades já não nos metem medo, foi pena não irmos aos picos todos, mas extraordinário é chegar lá acima ver todo o horizonte e sentir os cheiros e a brisa a infiltrar-se por nós dentro, com tudo fechado pelo nevoeiro não valia a pena. Foi muito bom. Agora vamos ao lanche!
- Porra! Tu tás poético comó caraças, onde é que tiveste a beber que eu na vi?
Depois das garrafas vazias
- “Bastinho”!? vamos embora! Isto tá uma chachada, a musica muita alta, uns bailarinos da treta, ninguém vai ó banho na piscina pá malta rir um bocado, andam páqui pa trás e pá frente ós pulos e a cantar mas sem piléria nenhuma, ná na tou com pachorra! E a comida, e a pinga? Já não há! E tamém na tava nada de jeito!
- Porra… ó “Picolé” do caraças! Tenho-te aturado o dia todo mas paciência tem limites! Comeste que nem o alarve, bebeste como uma esponja, estás bêbado que nem um casco, não trouxeste nem um pacote de amêndoas, e agora queres ir-te embora porque tás farto? F*************!!!!!
- É pá! Ó “Bas”, tás chateado comigo? Possa, na quero mai nada contigo, vou falar com o Francisco, esse ao menos ouve as pessoas, compreende-as e até lhes dá conselhos e apoio, é um verdadeiro amigo e companheiro!
- Tá bem, vai lá vai e desampara-me a loja…
Cinco segundos depois
- “Bastinto”, empresta-me ai a chave do carro pa eu ir dormir…
- Já?! Então?
- O Francisco tá irritado comigo, diz que abri a porta da gaiola e foi por isso que o piriquito fugiu, pa mir embora antes que perca a cabeça e na ouvi mai nada co homem irritado na se pode aturar!
- Espera ai! A porta da gaiola?! Mas o que é que tu fizeste?
- Nada pá! Só tentei que o gato se desse bem com o passarinho, nunca pensei co gajo bate-se ca porta e desse com a asa ao canelo…
- É pá, o que é que eu faço contigo? Toma lá a chave e vai dormir vai…
Acabou…

Será que estes dois vão aparecer mais vezes? Não perca, os próximos episódios…



A visita da Cegonha


Mãe!
Deixei-me levar nas ondas das tuas asas,
Quando deixei o tempo do teu ventre criador.
Deixaste-me voar entre mundos de ameaças,
No aconchego, do teu colo de eterno amor.

Mãe!
Esqueci o tempo, que aprendi para viver
Num bando solto pelos quarteis do firmamento.
Lembra-me o tempo que aprendi para sofrer,
Nos redondéis onde só cabe, a dor e o sofrimento.

Mãe!
Foste o rio de magia onde banhei todo o meu ser,
És o mar de espuma branca num ondular de pureza.
Pousas em mim, como sombras dum eterno amanhecer,
Rejuvenesço nas tuas asas, que são meu mundo de certeza.


A fotografia é da autoria da Rita Afonso. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Hino


Os corações andam muito ansiosos
Toda a semana mostram-se bem curiosos
Para saber onde vão no fds
E não faltarem na hora que comece

Mal chega o dia, ao romper a madrugada,
Lavam bem os dentes e a cara não acordada.
Saem de casa com a mochila recheada
Vão correr mundo numa longa caminhada.

Somos Novos Trilhos
Andamos muito contentes
Somos pais e filhos
Tão iguais como diferentes
Somos Novos Trilhos
Não há nada que nos prenda
Se faltam os caminhos
Nós fazemos de encomenda

Faça chuva ou faça sol dispensam o andaime
Em qualquer lugar abancam na hora do “banana time”
Retocam a maquilhagem num WC improvisado
Aliviam o bandulho deixando o ar perfumado.

Com fruta e alface se faz a festa
Quando a fome aperta no paiol
Aproveita-se o tempo para uma sesta
Lá nos montes que se erguem até ao sol.

Somos Novos Trilhos
Andamos muito contentes
Somos pais e filhos
Tão iguais como diferentes
Somos Novos Trilhos
Não há nada que nos prenda
Se faltam os caminhos
Nós fazemos de encomenda

Tá quase no fim a jornada
Escolhe-se um belo local
A malta está animada
E a foto não está nada mal.

Alongam-se pernas e braços
Invade-se o café principal,
É tempo de afagar cansaços,
A luta foi dura, mas foi divinal.

Somos Novos Trilhos
Andamos muito contentes
Somos pais e filhos
Tão iguais como diferentes
Somos Novos Trilhos
Não há nada que nos prenda
Se faltam os caminhos
Nós fazemos de encomenda

Somos Novos Trilhos na terra e no ar
Somos Novos Trilhos não ficamos na cama
Somos Novos Trilhos não queremos parar
Somos Novos Trilhos até para a semana…

Isto tinha uma melodia, mas esqueci-me como era
e também não sei escrever pautas de musica…











Um ano cheio...


Era uma mensagem como outra qualquer.
Um convite para uma caminhada igual a tantas outras.
Com certeza que sim. A outra opção para esse dia seria: dormir até mais tarde, aborrecer-me a ver o tempo passar e ficar mais velho, logo, mais rabugento.
Montachique? Já conhecia! E depois? Se há coisas que devemos fazer com frequência e as vezes que nos dá na gana, é sentir o contacto com a natureza. Seja onde for há sempre coisas novas para ver. O que não vemos hoje, amanha há-de ser visto. As serras, os montes, os prados, as árvores, as planícies, estão em constante mudança. A luz que a manha nos trás, tem tonalidades diferentes todos os dias e todos os dias nos encanta. É por esse encanto e porque doutra maneira não chego tão perto do sonho, que caminho ao encontro da pureza que a terra ainda conserva. E depois: andar a pé é o nosso destino! Fazemo-lo desde que nascemos! E só não vamos a pé para a eternidade porque nessa altura já as pernas não suportam o corpo.

Lá fui.
O ano estava no fim e acabar com uma caminhada era magnífico. Sabia que ia encontrar caras amigas, caras conhecidas e caras novas, também amantes destas aventuras. Estava a léguas de imaginar que a ultima caminhada do ano, era o começo dum novo tempo, doutras andanças, mais aventuras, outra visão dos espaços ao ar livre, sentir mais terra debaixo dos pés que a vão pisando, unir o remanso da planície ao duro cume onde chegamos extenuados abrindo a alma para que o horizonte nos compense.
O ano velho terminou em Montachique, para alguns foi apenas mais uma aventura, para outros… bem, tou cansado!
O ano novo começou em Alhandra. Mais trilhos conhecidos, mais paisagens já guardadas. Mas, havia algo novo, havia qualquer coisa boa que estava a acontecer. Depois vieram mais outras e vieram amigos que trouxeram “outro amigo também” e disseram “venham mais cinco duma assentada” enquanto eu, no meu papel de melga peçonhenta, não arredei pé nem arredarei por nada. Se não me quiserem, tornar-me-ei transparente para que não vejam quem os anda a melgar.

Enchi o peito com lufadas de ar puro
Lavei os olhos com as gotas da geada
Estiquei as pernas pelos trilhos de chão duro
Vivi meu sonho, no silêncio da cumeada…

Foi um ano cheio. Fiz amigos que têm pachorra para aturar as minhas tonteiras, e aprendi que o tempo não nos mata, apenas nos dá idade. Mas a idade não nos tira nada enquanto o espirito estiver são e nos empurrar para a vida, que só existe quando a vivemos bem!
Foi um ano cheio e este já leva que contar. Mas isso fica para outras folhas de papel…

joaocasaldafonte

segunda-feira, 25 de março de 2013

60 CAMINHADAS!



Foi nos idos de Dezembro de 2011 que depois de algumas atribulações, em boa hora acontecidas, me decidi a lançar um lema, CAMINHAR SEMPRE!

Uns dias depois, numa atitude com fraca expectativa, criei um evento no facebook Caminhada de fim de ano - Cabeço de Montachique o qual para meu espanto chegou aos 36 participantes. Assim... começando quase do nada, confesso que me assustei pois conhecia pouco mais de meia dúzia deles e estava longe de conseguir tanta afluência.


Caminhada de Fim de Ano - Cabeço de Montachique - 31/12/2011
Caminhada de Fim de Ano - Cabeço de Montachique - 31/12/2011



Cheio de receios e até algo assustado, realizei o evento, correu bem...! e desde esse dia tem sido quase sempre assim, a exceder as minhas expectativas. Apesar do sucesso deste primeiro evento pensei que o mesmo era casual e que não se iria repetir a proeza. No entanto e apesar de em menor número, na segunda caminhada fomos 17, embora apenas conhecesse 2, o Carlos e a Cacilda, os padrinhos deste grupo e sempre em crescente evolução fomos aumentando e aumentando a interacção entre as pessoas até formarmos um grupo mais ou menos coeso mas sem pretensões e apenas com um único elo em comum, o pedestrianismo!

Moinhos do Milharado - 14/1/2012

 




Estas caminhadas tiveram sempre algumas particularidades como denominador, actividades intensas, de grau de dificuldade elevado, com um ritmo exigente, ou seja valorizando e desenvolvendo a vertente desportiva. A estas características há a juntar o excelente ambiente que se tem sabido viver nestes dias e que de certa forma nos distinguem, uma enorme alegria que faz soltar as pessoas e as faz sentir leves e tranquilas apesar da dureza física dos eventos.



Com esta determinação, com este grupo de bravos e com esta alegria
NASCERAM OS NOVOS TRILHOS!


Viagem à aldeia perdida de Broas - 19/2/2012



 
Passado pouco mais de um ano e depois de muitas peripécias, travessias e resistências chegámos à 60ª Caminhada que será a próxima, é altura de festejarmos aproveitando a quadra festiva e começarmos a registar neste blogue as aventuras e desventuras das nossas incursões semanais por esses montes e vales.



Do Castelo de Óbidos ao Castelo de T. Vedras - 50 km - 23/3/2013


A todos os que semana após semana ajudaram a formar este grupo e o excelente ambiente que se vive no seu seio! BEM HAJAM!